12 Feb 2010

por granada

EM GRANADA...

Em Granada, na taverna de El Rey Chico,
ceámos caracóis.
Era no Outono, num Outono rico
de folhas secas a curtir aos sóis...

Em Granada — nem sei como te conte —
era a minha obsessão
quedar-me sem sentir, ser estátua de fonte,
diluir-me em frescura e diluir-me em som.

Quis meter meu desejo num convento
em Granada la vieja.
Vestir-te de clarisse e adorar-te de lento,
numa cela estival sobre o esplendor da vega.

Na Granada das torres cor de sangue,
com trágicos jardins,
adormecias de fadiga, exangue,
e tonta do perfume dos jasmins.

Lia contigo Las Moradas, Santa Teresa,
— Granada monacal! —
e era o meu desejo uma ábside acesa,
uma rosácea, um vitral.

Emagrecidos, uma sesta ardente,
— Granada das quimeras! —
errámos no Albeycim, pobre par penitente,
e eu dava à tua sede os frutos das chumberas.

Foi queimada de sol, toda contra um cipreste,
— luxuriosa Granada! —
com vozes de água no ar, como na Vila de Este,
que a carne te doeu, e alma abandonada...

O nosso amor beijava as formas namoradas
da Granada nocturna;
como nas fontes árabes, caladas,
a água, em beijo, a modelar a urna.

Vinham ao nosso carmen, sobre o Darro,
— ó Granada espectral! —
guiados pela luz do teu cigarro,
Boabdil e a corte, fantasmal...

E era de luxúria aveludada,
— ó Granada em alfombra! —
a noite de mors-amor murmurada
pela tristeza árabe da sombra.

[António Patrício — médico, diplomata, dramaturgo e poeta português. Nasceu no Porto, em 1878, e morreu em Macau, em 1930.
Este poema faz parte da sua obra Poesia Completa. Lisboa, 1980]
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Frederico García Lorca

Garcia Lorca, irmão:
Sou eu, mais uma vez...
Venho negar à humana condição
A humana pequenez
Da ingratidão.

Venho e virei enquanto houver poesia,
Povo e sonho na Ibéria.
Venho e virei à tua romaria
Oferecer-te a miséria
Duma oração lusíada e sombria.

Venho, talefe branco da Nevada.
Filho novo da Espanha!
Venho, e não digas nada;
Deixa um pobre poeta da montanha
Trazer torgas à rosa de Granada!

Indomável cigano
Dos caminhos do tempo e da ventura,
Sensual e profano,
O teu génio floresce cada ano...
Venho ver-te crescer da sepultura!

Bruxo das trevas onde alguém te quis,
Nelas arde a paixão do que escreveste!
Sete palmos de terra, e nenhum diz
Que secou a raiz,
Que partiste ou morreste!

Uma luz que é o oceano da verdade
Abre-se onde os teus versos vão abrindo...
A eternidade,
Na pureza da tua claridade,
Sobre o teu nome, universal, caindo...

E o peregrino vem.
Reza devotamente,
Põe no altar o que tem,
E regressa mais livre e mais contente...
Assim faço, também!

[Miguel Torga, «Frederico García Lorca»,
in Poemas Ibéricos. Coimbra, 1982]

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